27 de setembro de 2016

Um desabafo, nos quase 30!


Recebo muitas perguntas sobre depressão na obesidade. Dentre elas, se eu tive antes, durante ou depois do emagrecimento. Então resolvi bater um papo aberto com vocês e contar um pouco mais da minha história de vida.

Fui/sou gordinha desde pequena. Na verdade, eu era uma criança “normal” até os 5 anos – fase da separação dos meus pais, por acaso – fazia jass, ballet e o que mais rolasse de atividades, eu era amostrada mesmo. Não sei a real influência sobre o início da minha obesidade, mas lembro como se fosse hoje, minha mãe dizendo: “Ela procura o pai no fundo do prato!”. Não sei, sei apenas que engordei. Me sentia mal na infância quando desejava comprar uma roupa em determinada loja da modinha e simplesmente não cabia. Me sentia mal em ter que trocar o jeans da escola todo mês, porque simplesmente as coxas eram tão grossas que a calça esgaçava. Me sentia mal em ficar – sobrando – na cadeira da escola e mais ainda, de sempre ser a melhor amiga de todos os meus paquerinhas. Porque a real é que todo gordinho é bom amigo. Os anos passaram e eu ouvia muito: “O cabelo dela é lindo, o sorriso é lindo, mas ela é muito gordinha. ”Lembro como se fosse ontem, um menininho que eu era apaixonadinha, falando para minha melhor amiga. Mas e aí, eu emagreci? Não. Me afundava mais ainda na comida para descontar essa não aceitação, a comida ela abraça, conforta e faz até cafuné quando ninguém mais entende você. Chegou uma época que cansei, lembro bem que foi no terceiro ano – onde não fiz questão de ir a viagem da escola com vergonha de usar biquíni ou ser diferente das amiguinhas – que resolvi mudar. Simplesmente parei de comer, simples. O mal do gordo não é comer demais? Estudava a tarde, então acordava cerca de 10h, tomava um suco de laranja e ia ao colégio. Na hora do lanche não comia nada e a noite me agarrava em um pedaço de frango com salada. Em menos de 6 meses eu havia perdido 20kg, a farda do colégio caia, mas ainda assim eu ainda era a mais gordinha. Lembro bem que não rolava bulling direto, sempre fui descolada e também estudei no mesmo colégio do maternal ao terceiro ano, conhecia todo mundo e sempre fui abusada ao ponto de não levar desaforo para casa, então falou-levou!

A vida tem dessas coisas, não é? Aqui em casa todo mundo é gordinho e a – gordura – nunca foi um tabu, porém eu me sentia diferente e só queria entrar em qualquer roupa. Só queria ser olhada normal, ou até ter o meu namoradinho da adolescência como as minhas amigas. Mas não deu. A ficha caiu aos 20 anos, após ter entrado na faculdade, ter ganho os 20kg e muitos outros e do nada, sem pensar – como todo mundo há 10 anos atrás – achei que a bariátrica ia mudar a minha vida. Rolou a cirurgia, tive uma infecção e semi morri, mas com 30 dias já havia perdido mais de 20kg, coisa que parecia um sonho. Em um ano eliminei cerca de 50kg e a vida era outra, plena. Comprei – TODAS – as roupas que desejei, as baratas e as caras, mas se fossem 38 eu estava levando, isso parecia apenas um sonho e nada mais. Nunca pensei que essa compulsão pudesse ser um distúrbio, afinal eu sempre fui normal.

Fui curtir minha adolescência na juventude. Já ganhava o meu próprio dinheiro, tinha o meu carro e graças a Deus aqui em casa nunca me faltou nada, nem amor, quanto mais pão e queijo. Virei a rainha das baladas, frequentava todos os melhores lugares, com as melhores roupas – agora elas cabiam – e tomava a melhores bebidas. Resultado? A bariátrica não combina com excesso de bebida, mas isso eu só aprendi depois de muito “esquecer” da noite anterior, depois daquelas roupas 38 começarem a ficar apertadas e de perceber que a vida estava ficando vazia, no fim do dia. A solteridão já havia tomado conta, mas e aí o que fazer quando não se sabe nem namorar? Namorar no sentido da palavra, me relacionar mesmo com alguém, porque essa fase na adolescência eu pulei, assim como nunca havia vestido 38, mas sim 52, enquanto jovem.

A ficha cai, você organiza sua vida. Conclui faculdade, exerce sua profissão, ganha o seu próprio dinheiro, realiza sonhos profissionais, pessoais, mas a solteiridão fica. Passa a entender os reais valores das coisas e pessoas. Entende que nem tudo é roupa, balada e noites de festa. Que seu corpo mudou, mas sua cabeça precisa se adaptar a ele. Passei a cuidar de fato de mim, a realizar atividades físicas, melhorei a alimentação, até me apaixonei – coisa que não deixava acontecer, tinha medo – mas quebrei a cara, como bem ali na adolescência, onde ouvia: “ela tem o cabelo e o sorriso lindo, mas é muito gordinha – e o mundo desmorona. Afinal, seria um trauma? Não sei, nunca procurei entender ou ajuda de algum profissional na área. Só comecei a entender que NADA na vida é fácil, mas que eu passei por coisas muito pesadas, que me ensinaram a ser bem mais forte. Apenas hoje, nos meus quase 30 e sem experiências de namoro, sei dizer que de fato, enquanto a gente não se ama de verdade, mais ninguém poderá amar. No famoso "cuide bem do seu jardim para receber as borboletas".

Costumo dizer que eliminar 55kg para mim, foi muito mais do que perder quilos na balança. Eu passei a me amar, a valorizar uma mulher que nunca havia existido de fato. Eliminei aquele medo bobo de ir a praia e tirar a camisa, somente pensando no que os outros iam falar. Conquistei meus sonhos, paguei pelas minhas melhores conquistas, no caso, as cirurgias reparadoras, não apenas por vaidade, mas pelo fardo que pude remover da minha vida. Aquela realização parecia um start na minha vida, parecia que só ali eu começaria a viver, não sei explicar.

Hoje a maioria daqueles amiguinhos(as) gatinhos(as) da infância embarangaram, casaram e já tem outros objetivos de vida e eu me atrasei nessa etapa. Digamos que quando “renasci” que comecei a viver muita coisa massa que antes, apenas passavam por mim, que nem paisagem bonita, na janela de cachorro em carro de alta velocidade. Não, eu não era triste. Mas eu era presa, presa em uma Danielle que nunca curti, mas deixei ser. Aproveitei muito minha infância, adolescência, época de faculdade, pós... Mas a vida mudou, mudou para melhor e nem sei explicar por que. Me considero – somente agora – tomando os rumos certos, correndo atrás dos meus objetivos e valorizando o que realmente importa e a quem de fato, realmente se importa comigo.

Não sei o porquê do desabafo, mas foi uma reflexão de quem está beirando os 30 e está bem confusa sobre como será a vida daqui para frente, mas respondendo à pergunta inicial sobre depressão ou acompanhamento, resolvi ceder – somente agora – a bater um papo com alguém, mesmo achando que sou normal e não quero contar nada da minha vida e tenho me sentido muito mais leve. A sobrecarga do peso – peso esse em quilos mesmo – de uma vida, parece que atrapalhou sim na formação de um EU, apesar da mulher que me tornei. Só queria dividir mesmo com vocês, que a partir de agora, vai ter alguém “cuidando de mim”, assim como eu tento cuidar tão bem de vocês e espero poder compartilhar de mais e mais ensinamentos do bem. De conquistas pós 30.

Um beijo e um abraço bem apertado, a quem teve paciência de ler até o final. As vezes um desabafo cai bem e deixa a gente mais leve! <3 

7 comentários:

  1. Show, Dani!

    Parabéns pela força de vontade e pela coragem em compartilhar sua história.

    :*

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  2. Que maravilha ler sua história, dizem que quando precisamos de algo , Deus de diversas formas nos mostra o caminho e o q devemos fazer.
    Então, eu agradeço pela sua história que acabo de ler e entendo que é o que preciso para mudanças,e principalmente ser feliz.
    Obrigada pela sua disposição em ajudar as pessoas,a mim com certeza vc ajudou e muito.
    Grande bj e creio que muito em breve estarei apresentando a minha mudança....

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  3. Que maravilha ler sua história, dizem que quando precisamos de algo , Deus de diversas formas nos mostra o caminho e o q devemos fazer.
    Então, eu agradeço pela sua história que acabo de ler e entendo que é o que preciso para mudanças,e principalmente ser feliz.
    Obrigada pela sua disposição em ajudar as pessoas,a mim com certeza vc ajudou e muito.
    Grande bj e creio que muito em breve estarei apresentando a minha mudança....

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  4. Parabéns e obrigada por compartilhar. Beijos

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  5. Dani, obrigada por compartilhar sua história, é ótimo ver que jamais estamos sozinhas.
    Estou na fase de pré-cirúrgico e naquela ansiedade por laudos e agendamento da cirurgia, difícil se controlar nestes dias... seu blog me ajuda a entender as coisas que passarei e a me encaixar dentro da minha própria história.
    Obrigada
    Mari - https://namontanharussa.wordpress.com/

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  6. Linda historia! Vivo hoje algo parecidove inverso!!! Sempre fui magra, de curvas bonitas fechando em um belo corpo... Hoje estou vivendo a compulsividade pela comida e enxergando a olho nu o aumento de peso. Sua historia me animou... obrigado!

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  7. Só hoje li por completo sua história. Linda demais. Me identifiquei em algumas etapas. Muito legal saber que está vencendo seus medos e obstáculos. Essa fase de reconquista de sonhos guardados é fantástica.
    Tenho 35 anos,fiz a cirurgia em Março, estava com 123Kg, hoje estou com 81Kg e estou ficando com o corpo que sempre sonhei. Isso pode parecer uma futilidade para algumas pessoas, mas só quem viveu "pesado" todos esses anos, sabe o valor que tem essa vitória. Parabéns e muito sucesso na vida! Abraço.

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